Uma pobreza de dar dó. Mas estamos todos aqui

Os rostos da pobreza são conhecidos. Pertencemos em maior ou menor grau a ela. No linear entre o necessário para viver e falta de quase tudo. Na São João Batista dos anos 80 e 90 a comida era comprada e marcada na caderneta dos mercadinhos do bairro. Podia-se também ir ao Puel e Remael e anotar o básico, que era necessário para ter alguma coisa na mesa.

Comprar roupas? Nada de marcas e só se a do primo ou amigo não servisse. A da missa era adquirida na lojinha da Tide lá na Tajuba I, no Retalhão, Fioravante ou na Dona Wanda. E quando deixasse de usar passava adiante. Foi momento em que a expressão “trabalhar de dia para comer a noite” era retrato do dia-a-dia. E nos anos 90 com fechamento da Usati, era de criatividade que se criavam os filhos.

Papa Leão XIII escreveu que a pobreza não é um opróbrio e que não se deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. “A verdadeira dignidade do homem e a sua excelência reside nos seus costumes, isto é, na sua virtude; que a virtude é o patrimônio comum dos mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos”.

E éramos os pobres felizes, que usavam as cadernetinhas do comércio, reaproveitavam roupas, andavam de chinelo e nem sonhavam com prédios ou mercadões como o Koch e Macris.

E se 90% das ruas da cidade não era pavimentadas, permitiam que as crianças se sujassem de barro. Sem creches, iam para escola meio período e no outro brincavam na rua mesmo. E se sujavam. Eram as mães, tias e vizinhas que davam uma olhadinha nos filhos enquanto os pais trabalhavam.

Pobreza de dinheiro que permitiu a criação de uma geração avessa ao miojo e compreendendo o valor das pessoas. Os elos se estendiam pela vizinhança. E o caderninho do mercado da dona Aurora e da Tide são os monumento a esses relacionamentos. Diálogo que se dava na cozinha, com chão de madeira na meia água emprestada pelo tio, e que se transformava no ponto de encontro dos velhos camaradas. Chimarrão ou café com pão. Pirão, linguiça ou ovo. Leite que vinha da vaca nos fundos da casa e o pão no fogão a lenha. Sem esquecer da chimia.

Andar a pé ou de monareta era tão comum quanto o ‘ooopp’ ao passar por qualquer pessoa. Geração dos pés descalços, bicho-de-pé e da família que educava. Éramos pobres de dar dó, mas estamos aqui firmes e fortes. Moldou a personalidade e caráter de uma geração. Eram as mães correndo com chinelo nas mãos, para corrigir as ‘más-criações’.

Criados na simplicidade do tempo, temos a obrigação de passar aos nossos filhos valores mais sólidos. ‘Geração Y’, Geração Miojo e Geração Floco de Neve estão sendo conduzidas em um mundo onde a facilidade é a alma das famílias. A comida é fácil, o dinheiro nasce em árvores e ‘ter’ se tornou objetivo de vida. Não lidam com frustrações e perdas. Passa o cartão de crédito e parcela os relacionamentos.

Da pobreza que somos nascidos, recebemos valores que devem ser repassados. É dar importância ao contato nos bancos da praça, nas festas de igrejas e nos ferimentos pela queda de bicicleta. É Paulo Coelho que garante que as coisas mais simples da vida são as mais extraordinárias, e só os sábios conseguem vê-las. Nossas orelhas ficavam vermelhas de serem puxadas pelos pais, mas evitava-se que a vida fizesse esse trabalho.

Os ‘carretões’ precisam voltar para as ladeiras, e as varetas desenhar uma amarelinha na areia. É fácil comprar o carrinho e boneca. Correria para o esconde-esconde e pega-pega que fortalece laços. Bolinhas de gude, empinar pipas, passar anel e brincadeiras de roda permitirão que deixemos filhos melhores por herança. Era uma pobreza de dar dó, mas fomos ricos por essência. E estamos todos aqui. Bem aqui.

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons. – Carlos Drummond de Andrade