O morto não existia. Mas a lama estava por todo lado

Era a coisa mais amada do mundo. Me chamava de ‘Ninha’. Alguns pratos e talheres ficavam guardados em um armário, e vinham pra mesa quando íamos almoçar na casa dela. Como minha avó ficou com parte das louças da bisavó, a “Mutter”, eu me recusava a comer. A bisa morreu quando eu tinha sete anos. Não entrava na casa dela. Alemoa das bravas, não gostava ‘dos brassilianis’, como dizia.

Jordelina, minha avó, era chamada pelos netos e filhos de ‘Má’. Apelido carinhoso. Não se sabe ao certo como iniciou nem as origens, mas supõe-se que minha prima Nete, a neta mais velha, foi quem fez o batizado. Dela restaram histórias e memórias. Contava que sempre que subia o Morro do Descanso à noite, encontrava um cortejo. Caixão branco e pessoas pranteando o defunto.

Das melhores histórias, contadas até hoje por dona Minda, minha mãe, está a do sonambulismo. Fala da minha avó, mas também ela tem alguns ‘causos’. Algumas noites foi encontrada dormindo dentro do paiol, em meio à farinha. O assunto, no entanto, é a Má.

Certo dia a casa, que ficava próximo a um ribeirão no Morro em Major Gercino, amanheceu toda ‘trilhada’ de lama. Era como se dezenas de pessoas tivessem passado em um atoleiro e percorrido a casa de madeira. Os rastros terminavam na cama da Má. Tudo enlameado. Dizem que naquela madrugada dona Jordelina teria sonhado que uma pessoa, que morava próximo teria falecido.

Sonambula levantou da cama e foi até a casa vizinha para o velório. No caminho tinha uma área encharcada e com lama. O caminho foi refeito várias vezes naquela noite. Minha avó ia até a residência vizinha, voltava, deitava na cama e depois refazia o trajeto. Na manhã seguinte os filhos pequenos, meu avô e outros parentes acordaram assustados com a quantidade de lama na casa. Para confirmar a história, Tia Ernestina teria seguido as marcas e chegado até a residência vizinha, onde segundo a Má, estaria acontecendo o velório. Não tinha morto algum. Tudo não passava de um sonho.

Outros causos permeiam o imaginário de quem viveu no Morro do Descanso antigamente. Gente que lutava com o ‘demônio’, chegava a casa sangrando, e jurava ter matado alguém. Pela manhã saiam todos procurando o corpo, que jamais era achado. Outro dia me contaram a história de um suposto morador do Morro, que percorria a pé as trilhas de mata fechada, que terminam próximo a Angelina, se dirigia até a barragem e atravessava à represa, sentado em uma folha de bananeira. Dizem que fazia isso ajudado pelo capiroto.

Se essa é verdade eu não sei, mas está no imaginário de quem viveu nessa região.