Morre pai, mãe, filho, mulher e um pouco de nós

Quem nunca teve vontade de esganar alguém? Por mais tranquilo que possa parecer, ninguém está livre do arrebatador impulso para a violência. E ela faz parte do ser humano. A violência é como uma espécie de arquivo de computador não executável. Ficam aqueles anjinhos nos ombros, ao pé do ouvido, dizendo que você deve se controlar. Ainda assim, num momento de ira, ninguém está livre de cometer algum ato violento. Existem monstros camuflados em imagens sorridentes e fotos de famílias felizes. Choque que mostra a sombria realidade escondida entre quatro paredes. Há filhos que ficam órfãos, pais e mães que definham no desespero de perdas irreparáveis, futuras gerações que são obrigadas a suportar o estigma do assassinato em família. Na tranquila Nova Trento filho morre em briga com o pai. No oeste de Santa Catarina três mulheres da mesma família foram mortas a facadas na segunda-feira, mesmo dia do crime que chocou a Terra de Santa Paulina. Também na segunda um tijucano esfaqueou a mulher, a enteada de 17 anos e o filho de 14. Em Abelardo Luz no oeste catarinense, pai foi morto a machadadas pelo filho de 16 anos. É um sintoma da contemporaneidade? Não existe uma explicação tátil do que leva a esses crimes cruéis. As suposições variam de acordo com cada caso, e tentativas de justificar a barbárie vemos estatística explodir. Para os mais religiosos, a falta do apego ao sobrenatural expõe as pessoas aos impulsos violentos. Para os cientistas pode ser alguma psicopatia, que após tempos de dormência insurge sangrenta e levando aos extremos. Os educadores podem afirmar que a falta de limites das últimas gerações cobra agora o preço, e os políticos aludem à falta de legislação punitiva. Ambos podem ter fundos de razão. Podem. Existe um bárbaro que ainda se aconchega em nós humanos. Freud disse em uma de suas analises que os impulsos de morte, subsistentes no ser humano, escapam ao controle do superego, consciência, regras sociais e aproveitam o espaço liberado para se manifestar em sua virulência. “ O indivíduo se sente amparado e animado pela multidão para dar vazão à violência escondida dentro dele”. Instigante a filósofa Hannah Arendt cunhou a expressão “a banalização do mal”. A barbárie, o crime, o assassinato pertencem ao âmbito do humano. Carregamos dentro de nós, latente, mas sempre atuante, o impulso de morte. É motivo que explica, por exemplo, o sucesso dos programas policiais na televisão. A fé e as leis servem como bom mecanismo para frear nossos instintos animalescos. Brutalidade que a toda hora ressurge com expressões inomináveis de violência. Contexto social tem certa culpa nessa linha que vamos seguindo. Ao usurpar conceitos básicos de educação, autoridades que se perdem e a névoa que se forma sobre o bem, vamos estimulando os arroubos. Sinais que são vistos, a exaustão, nas redes sociais, onde os demônios de cada um ganha um perfil e sem medo de usar a violência explicita contra o outro. Uma percorrida pelo mundo virtual revela o que o face a face esconde. Hoje a violência se tornou banal. Dia após dias na televisão, rádios, jornal e nas redes sociais somos bombardeados com relatos e imagens fortes. Isso vai banalizando os atos violentos e também a impunidade. Pais dão revólveres de brinquedo às crianças e os jogos de videogame de luta e morte. Teoricamente a violência se tornou algo correto. O jovem é dominado pelo traficante de drogas. Perdeu-se a respeitabilidade para mostrar o que é certo e errado. Se na infância de muita gente bastava o pai e mãe olhar com o canto dos olhos para impor autoridade, atualmente basta isso para ser morto. Dos valores que se perdem em casa, se estendem para as ruas e os humanos vão confrontando sua barbárie. Na extinção do amor vãos dando espaço ao ódio e sofrimento. Precisamos reencontrar nossa alma, no sublime do religioso ou no respeito às leis. A humanidade precisa de uma pausa, sob risco de colapsar e ver seus demônios dominando. Os doloridos registros de mortes em família são sintomas da doença que vai crescendo. E esses são só casos que ganharam publicidade. Outras violências estão escondidas nas casas e ruas e o medo da denúncia deixam ela lá, se repetindo.  Precisamos de um urgente reencontro com o lado bom do ser humano. Ainda é tempo.

“Condenamos a crueldade alheia sem indagar se, em situação idêntica, não faríamos a mesma coisa.” – Carlos Drummond de Andrade