O assassinato do vice e a cassação do prefeito

Estética de uma pequena cidade tranquila, cravada no coração do Vale do Rio Tijucas, esconde momentos históricos nebulosos e sem explicações concretas. Em janeiro deste ano completou 48 anos da cassação do mandato do ex-prefeito Wilde Carlos Gomes, que havia assumido o comando do município um ano antes. Gomes foi retirado do cargo em um dos atos mais contraditórios da história de São João Batista.

Gomes morreu em janeiro de 2012 e até hoje não foi feito justiça à memória do ex-prefeito pelos fatos desenrolados em 1971. Ele ocupou o poder em São João Batista em duas ocasiões e era irmão de Walter Vicente Gomes, que além de Tijucas foi Deputado Estadual. Após ser retirado do cargo, Wilde foi substituído pelo interventor militar Capitão José Antônio Bento, que comandou a cidade até 1973. Narrativa oficial tem poucos dados que justifiquem o afastamento do prefeito.

Era época de ebulição social e política em São João Batista e no pais. Ditadura impunha suas vontades sobre a população e as decisões eram determinadas de cima pra baixo. Na cidade a divisão entre forças políticas também eram evidentes com dois grupos distintos. Diferente do que é hoje a Arena dominava o cenário, mas era separada em duas facções e que podem ter dado origem aos ‘colas brancas e pretas de hoje’.

Da história que se desenrolou nos bastidores, e que levaram a cassação do mandato do prefeito batistense, só pedaços de memórias de alguns moradores da região na época. Entre as especulações, a de que Wilde foi retirado do poder por ter supostamente feito criticas a Administração Central.

Nessa época Ivo Silveira era o Governador do Estado e Jorge Bornhausen o vice. Já o Brasil estava nas mãos do militar linha dura Emílio Garrastazu Médici. Foi neste período em que a ditadura militar atingiu seu pleno auge, com controle das poucas atividades políticas toleradas, a repressão e a censura às instituições civis foram reforçadas e qualquer manifestação de opinião contrária ao sistema, foram proibidas. Os anos de 69 a 74 ficaram marcados pelo uso sistemático e de meios violentos como a tortura e o assassinato.

Opositores de Wilde Carlos Gomes teriam se aproveitado desse momento para articular sua queda. Um grupo de políticos batistenses teriam ido a Capital do Estado e pressionado para a substituição de Gomes. Um mês antes o vice-prefeito de São João Batista, Cesar Bejamim Duarte foi assassinado em Tijucas. Um crime que chocou a cidade e que também esconde detalhes, sepultados pelos anos de chumbo. No cenário local, após a queda do prefeito, seus opositores se uniram a administração intervencionista, sem conseguir, no entanto, afastar Wilde da vida pública.

Em 1977 o ex-prefeito concorre e é eleito novamente prefeito de São João Batista com ampla aprovação popular. Ficou no cargo até 1983 e entregou a cadeira para prefeito para Sinézio Octaviano Dadam. As lentes do fotografo Guilherme Tomazzi, que registrou a instalação do município em 1958, não foram suficientes para preservar as histórias que se desenrolaram no decorrer da emancipação e as disputas políticas. Traços de uma cidade, que de berço preserva uma forte rivalidade, e moldou os conceitos partidários que São João Batista preserva até hoje.

Com a morte dos principais atores, e o tempo que leva a história para o esquecimento, as verdades da época vão sendo sepultadas. Nos anos de chumbo da ditadura um vice-prefeito foi assassinado, um prefeito foi cassado e a cidade seguiu seu curso. Ironia da história, mas 47 anos após o afastamento de Wilde Carlos Gomes, outro prefeito foi cassado. Daniel Cândido deixou o comando da prefeitura em agosto de 2016, e entregou a cadeira para o provisório mandato de quatro meses de Vilmar Francisco Machado. Assim como Wilde, Daniel foi reeleito com expressiva  votação. Na roda da história, as linhas políticas batistenses se repetem.