Povo, políticos e a graça da desgraça

Em um debate de rádio da eleição de 2012, o tema principal foi de que um dos candidatos era separado. Em 2008 outro foi questionado sobre filho fora do casamento. Já nas Câmaras de Vereadores o uso de assuntos de foro intimo é tratado com naturalidade. Em São João Batista acusavam um vereador de subir na tribuna bêbado, sugerindo inclusive a instalação de bafômetro no legislativo.

Acusações mútuas fazem parte ‘da tradição’ da política no Vale do Rio Tijucas. Quem não se lembra dos apelidos dados a políticos durante sessões da Câmara? O campeão era o vereador Fernando Perão. Kaddafi, Saddam e Engomadinho eram alguns. Nomes aos quais se referia a prefeito e ex-prefeitos foi alvo inclusive de ações na justiça.  Microfones quebrados, reuniões interrompidas e até atuação da polícia para acalmar ânimos.

Se for caso pra bafômetro, ele deve ser instalado na porta das zonas eleitorais, pra checar se o cidadão tem certeza que digitar aquele número. Das zonas eleitorais para a ‘curva do Ademir”, é um pulo. Uma confusão envolvendo dois vereadores de Canelinha nesta semana, é a prova do que as casas de luz vermelha as margens das rodovias não distanciam muito, em alguns casos, no que alguns políticos transformam a coisa pública.

Confusão envolve os opositores Adair da Conceição Lopes Filho, o Dica (MDB) e o suplente Adriano Sousa, o Liquinho (PP). No embate a disputa pra saber quem frequenta mais “a curva do Ademir”. Briga pessoal entre ambos tem como estopim acusações feitas pelo emedebista de que Liquinho teria danificado veículo da Prefeitura, durante a gestão do ex-prefeito Antônio da Silva, em uma boate, ou zona com diz Sousa.

O contra-ataque veio no vídeo em que o suplente de vereador diz que frequentou ‘a curva do Ademir’ e lá teria encontrado com Dica. Liquinho diz que chegaram inclusive a tomar cervejas juntos. Apesar do teor, esse tipo de discussão não é incomum em Canelinha. Cidade vive polarização política em MDB e PP o que eleva o tom e dos bate-bocas.

Para o ex-vereador Leonir Maestri (MDB) de Nova Trento, acusações de cunho pessoal custaram caro. Ele foi condenado a dois meses e um dia de detenção em regime aberto, pela prática do crime de injúria na forma continuada, contra o então vereador Josemar Guilherme Franzoi. Maestri perdeu o mandato e teve os direitos políticos suspensos.

Garantia de reeleição, falta de cobrança e fiscalização do cidadão, além da sensação que fazem parte de um grupo de privilegiados, amados pelo povo, levam políticos a se sentirem num puteiro. Nós rimos e fazemos piadas. Afinal, como brasileiros achamos graça da nossa própria desgraça.

HISTÓRIA SE REPETE

Nos anos 70 ou agora, no entanto, a dinâmica é a mesma. Câmara de Vereadores de São João Batista funcionava no Prédio da Prefeitura, e os debates eram quentes. Linguajar dos excelentíssimos ia aos extremos, nos debates sobre os problemas da cidadezinha, que a época tinha cerca de oito mil habitantes.

Entre os eleitos estavam Claudino Soares, que presidia o Legislativo, o radialista Mário Pessoa, Vavá, Esaú Silva, Teobaldino Mendonça e Afonsinho. Consta na história que em um de seus discursos, o presidente Claudino pediu para que os vereadores não utilizasse linguagem chula, que moderasse no discurso. Solicitação não foi bem recebida por Teobaldino. Claudino, o presidente, era contador, já Teobaldino tinha pouco estudo.

Na resposta ao presidente o vereador disse que ‘diploma não encurta orelha, e que um burro com um bocado de livros debaixo do braço, também é doutor’. Não precisou mais que isso para que a confusão se instalasse na Câmara. Anos 70 e a sessão foi, igual atualmente, suspensa, com os parlamentares saindo aos gritos de dentro do plenário.